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domingo, 15 de abril de 2012

100 anos








Precisamente no dia em que se afundava o Titanic, nascia o meu avô paterno, que curiosamente passou mais de metade da sua vida a navegar. O navio era muito mais o seu lar do que a sua casa em Lisboa. Embora amasse os seus, e quantas vezes o provou, o seu porto de abrigo vivia em mar alto, de cais em cais. Só me apercebi dessa felicidade não demonstrada em terra, quando fiz uma daquelas grandes viajens, a bordo da sua casa navegante. Foram quase dois meses de um outro avô que aqui nunca se revelou, quem sabe por lhe faltar o balanço do mar. Tempos antes da sua derradeira partida ainda pude juntar um bom rol de narrações das suas travessias, por mares navegados, mas com rotas que julgo quase impossíveis de repetir nos dias de hoje. Muitas conversas, entre garfadas nos petiscos que lhe fazia, e algumas confidências, me passou este calado Homem, que como bom lobo do mar, só abre palavra a quem bem entende. Foi um previlégio, este avô. Faria hoje cem anos. Mas a morte afundou-o. Duas vezes.

sábado, 31 de março de 2012

a Madrinha

A madrinha do meu pai era uma senhora daquelas tipo vedeta dos filmes dos anos cinquenta, alta, bonita, fina, de um porte a puxar muito mais para o germânico do que para o lusitano. Eu gostava muito de ir lá a casa por tudo. Pelo requinte daquela casa de Arroios, pela arrumação imaculada, pelos aromas. Tudo ali me parecia à filme. Num final de tarde, na visita da praxe, a Senhora Dona Isabel, assim se chamava a elegante bem vestida madrinha, estava eufórica, tinha adquirido um EP de um jovem cantor, de voz quente e madura, e queria-o no gira-discos quanto antes, coisa que, o solicito e também bem trajado filho se apressou a fazer. Fiquei maravilhado com a música, que a dado momento tem contornos de valsa. Mais maravilhado fiquei quando a D.Isabel se levanta e pede, meio em tom de ordem - Manél, dança comigo. E lá voavam, mãe e filho, sala fora, em elegante passo de dança. Aquilo era mesmo coisa de filme, do ambiente de Lisboa dos anos 60, nada tendo a ver com a vida provinciana que eu vivia do lado de lá do Tejo. Onde é que se via mãe e filho a dançar assim porque lhes deu vontade. Só mesmo na capital, e não em todas as casas. Só nas chiques. E aquela era. Foi assim que conheci o Tom Jones e o seu Delilah. Mais tarde comprei-o. Está lá para o sotão.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ciclos



Partiu deste mundo, ontem, a minha última tia-avó. A última visita que lhe fiz, a pedido da minha mãe, considerei-a maravilhosa. Uma lição de vida de uma pessoa que sempre foi simples, dedicada aos seus, vivendo apenas com os mínimos recursos, como lhe ensinara afinal, disse-o ela, a minha avó. Neto babado que sempre fui, naquela derradeira visita ao Espinheiro, lá pelos lados de Alcanena, tão bem que soube escutar o rol de histórias de quem passou tanta privação numa terra que muitos anos atrás poucos ou nenhuns horizontes podia oferecer aos seus. Quase por imposição da senhora minha avó, lá rumou o casalinho a Lisboa, onde progrediram a pulso nos rumos das suas vidas. Sofrida, esta minha tia, entre sorrisos das lembranças das peripécias vividas, e o recordar da perda recente dos seus dois filhos, fez-me ver de que fibra são feitas as pessoas de coragem. Ontem, com a sua partida fechou-se um ciclo. Outros virão, outros fecharão. De muitas imagens dela, recordo-a equilibrando grandes cestos à cabeça, sem perder a postura elegante no andar. Ensinamento da minha avó, eximía nesta arte de equilibrar volumes à cabeça por aquela Lisboa fora. Hoje, imagino-as juntas, a reverem velhas histórias, lá, onde dizem que se vive para além desta vida.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Nostalgias

Hoje, encontrei-o, aparentemente a ser remodelado. O Funchal já me levou por mares navegados, a destinos exóticos. Mas nem eram os destinos que me seduziam. Seduz-me a navegação, o vai-vem das ondas e aquele balanço que embala, os salpicos da água salgada, quando em alto mar nos chegamos aos decks exteriores. Foi este pequeno navio, o ultimo local de trabalho do meu avô. Também por isso, me diz tanto. COnheço-lhe bem os cantos, e nele até já cantei. Foi uma sensação estranha, estar ali perto do barco, que mais que uma vez foi a minha casa. Quem sabe, um dia possa voltar a entrar nele. Porque há mais vida para além da troika.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

concertos

Tenho andado um bocado revivalista dos concertos que vi, desde que a eles tive acesso, e como que a puxar o fio à meada, fui-me tentando relembrar de todos aos que assisti, dos momentos, aventuras, datas, com quem fui, não incluindo os de artistas ou bandas nacionais, isso fica para outras memórias. Certamente que me faltarão alguns, mas surpreendentemente deu-me um rol que não fazia ideia de ser tão extenso. Fica-me o lamento de não ter aqui incluído, os Queen, e o desejo de um dia acrescentar os Muse. Aqui vai:

em inglês:
ACDC
Atomic Rooster
Barcklays James Harvest
BB King
Bryan Adams
Camel
David Bowie
Def Leppard
Dexis Midnight Runners
Dire Straits
Doctor Feelgood
Genesis
Gary Moore
Ian Dury
Ian Gilan
Iggy Pop
James Brown
Joe Satriani
King Crimson
Lene Lovich
Lloyd Cole & Comotions
Lou Reed
Mike Oldfield
Nina Hagen
Peter Gabriel
Pink Floyd
Police
Propaganda
Rainbow
Rod Stewart
Rory Gallagher
Roxy Music
Santana
Scorpions
String Driven Thing
Supertramp
Tina Turner
Tubes
Whitesnake
Yes
do país irmão:
Ana Carolina
Elba Ramalho
Caetano Veloso
Chico Buarque
Djavan
Gal Costa
Nara Leão
Ney Matogrosso
Simone

domingo, 21 de agosto de 2011

ir á terra

Há dois anos que não visitava a minha terra, Cacilhas. A surpresa, visitar a fragata D.Fernando II e Glória, que me tranportou literalmente ao clima da saga dos Piratas das Caraíbas. As nostalgias foram as de palmilhar ruas tantas vezes palmilhadas em tempos de escola, reviver o ciclo que começa na Primária e termina no Liceu Nacional de Almada. para trás ficam o Canecão, o Central, o Nevada, o reitor indiano, as miúdas da Emídio e as queques do Frei. Os LP's carregados junto aos livros e sebentas. As revistas da Pop alemã, o Mundo da Canção, os livros escondidos, do Vilhena. Recuando, as colecções de cromos da papelaria no largo dos bombeiros em Cacilhas, os Tintins, os Mundo de Aventuras, as batas, os bibes e os laços, conforme o aproveitamento, o hino da mocidade portuguesa nas aulas de canto. As marmitas com o lanche, os primeiros tenis da Sanjo, as fugidas ao Cristo Rei para dar beijos na boca, e ousar apalpar até onde fosse permitido. Hoje, mais que um passeio revivalista, e descobridor da minha veia de Jack Sparrow, foi um reviver de alguns passados, e a constatação de que a minha Almada, como a vi, à época, já não existe. E o que existe, não me agrada. De todo.

sábado, 6 de agosto de 2011

a ponte dos 3 nomes

A ponte faz hoje anos. 45. Há 45 anos que, a meio do dia, regressando da habitual cruzada de leva e trás soldados, gentes, e tudo o que mais se possa imaginar, o navio Império entrou na barra de Lisboa e atracou em Alcântara. Ao passar por baixo da ponte o tripulante Trindade, senhor meu avô, decidiu que após o jantar, a família se meteria toda dentro do Opel de 1959, e passaria pela ponte, já que, naquele dia, após a inauguração, o trajecto era de borla. E lá foi o clã Trindade, representado por mim, meus avós, e meu pai (contrariado) rumo á nova ponte. Creio que foi o primeiro engarrafamento que presenciei. Do cimo da ponte nem para a frente nem para trás. A Lisboa automobilística trocara os seus passeios pela Marginal, Monsanto, Aeroporto, Campo Grande e eteceteras, pela travessia da ponte. Adeus velhos ferrys do Cais do Sodré a Cacilhas, adeus longas filas de desespero para entrar num barco e partilhar o espaço com as carroças. Dali em diante os cromados dos calhambeques e dos espadas fariam os seus reflexos na Ponte, rumo ao desconhecido, lado de lá. Pouco habituado ao pára-arranca, o Opel fumegou justamente em cima do tabuleiro da Ponte. O capot aberto, o vapor do radiador a sair, a cara do meu pai, capaz de fazer asneira, para o meu avô com cara de não me ralo, e não dou o braço a torcer, o ar de pânico da minha avó, ali no meio daquela altitude toda, não mais me sairam da lembrança. Alma caridosa nos arranjou alguma água para o fervente radiador, e dada a volta ao centro-sul, conseguiu-se rumar a Arroiois sem mais contratempos. Assim foi, há 45 anos, na ponte que já se chamou Salazar, que hoje se chama de 25 de Abril, e à qual eu chamo de Ponte sobre o Tejo, por mais que os cinzentos me digam que foi Salazar quem a pagou, e a pronto-pagamento, ou que os vermelhos a reclamem a como sua , vá-se lá saber porquê. Sobre o Tejo eu sei que está, e essa verdade, é muito mais verdade do que as outras o são.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Vinis de Culto

Uma visita de consulta aos vinis do sotão, levou-e a uma viajem no tempo. Daquelas em que por cada capa de LP que se abre, chegam os momentos da época. Um LP além de fazer parte de uma época, conserva registos analógicos que o digital nem cheira, então no que toca a graves, nickles. Além do mais algumas capas são verdadeiras obras de arte, repletas de conteúdos e de arte. Com o abrir das capas temos tudo o que nos vem daqueles anos. Os cheiros. As emoções. As dúvidas. As inseguranças, mas também as certezas de um mundo por desbravar. Um vinil hoje, representa para mim, um conjunto de retratos de partes da vida, um passado, uma recordação, um saborear dos momentos únicos em que se escutava, mais do que uma vez seguida, o mesmo disco, e em profundo silêncio. Escolhi alguns, de entre os mais de 400, que se tatuaram em mim. Poderão faltar outros. Um deles não lhe achei a capa, na net, é o "fazer futuro" do Tordo, assinado ao vivo pelo mesmo e pelo Ary, por ocasião de uma festa do Avante. São parte do que eu sou. São parte da minha inspiração, formação e cultura musical. Por isso os escuto, como o príncipe regava a sua rosa.