sábado, 13 de abril de 2013

Delírios

Em tempo de espera forçada, na oficina, vagueio entre os carros novos, expostos no stand de vendas, à espera de dono. Não resisto a abrir um deles, um deles apenas. De longe, o vendedor convida num aceno, pode sentar-se nele, e senti-lo. Mais uma vez não resisto. Estou dentro de uma suite de seis estrelas sobre quatro rodas. O cheiro do couro misturado com o odor do tudo novo embriagam-me. Imagino-me a atravessar os cursos de água, as lamas, as areias, os corta-fogos, a atingir locais muito pouco acessíveis, com vistas e aromas inebriantes. Mas, olho à volta, e penso, porque raio fazem carros destes? Gente com bom senso nunca colocará este Evoque a nadar na lama, ou em trilhos capazes de riscar a pintura metalizada. Este palácio rolante está dotado de um sofisticado sistema de 4x4, que creio, poucos dos endinheirados donos nunca irão usar. Embora como diz um amigo meu, o que custa é o primeiro risco. Depois a gente habitua-se.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

extrema unção

O governo está a dar o peido-mestre. Entretanto o portas sobe na popularidade, passando entre os pingos da chuva. Recuo na nossa História, a recente, a pouco recente, e a não recente, e fico sem saber se chore muito ou se berre.

low cost

Fiz parte da pequena equipa, que tratou de servir um casamento. Servi o que sei, músicas. Os tradicionais pratos servidos nestes eventos, foram substituídos por petiscos, e os vinhos selecionados por sangrias. No final, a felicidade reinante até me pareceu maior do que aquela que vi em muitos casamentos de pompa e custos elevadíssimos. Pode ser fruto da crise, que força as gentes a reinventar soluções, como pode ser opção, mas este modelo agradou-me. E como me dizia o noivo nos agradecimentos, não preciso de me casar nos Jerónimos para ser feliz. Não posso estar mais de acordo.

terça-feira, 9 de abril de 2013

os programas de tv, a revolução e outras questões

Não atinava muito com eles. A nova box lá de casa permitiu-me ver perto dos 12 programas, e mudei radicalmente de opinião, ali existe um humor inteligente e irreverente, incomodo para alguns e uma pérola para outros, num formato original.

Incomodo para alguns, pérola para outros, revivalista para muitos, não retrata apenas a vinda dos retornados das ex-Colónias, descreve bem para além do tema principal, usos, práticas e costumes, tais como o tema - aborto, na época chamado também de desmancho. Em conversa com a minha mãe, sobre o tema, tive pela primeira vez o conhecimento do histórico nessa matéria, dos desmanchos das mulheres da família. E fiquei de queixo caído. Mais um tijolo no muro que me separa da igreja, seus padres, e padrecos.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

nostalgias - era tudo menos, e tão mais

Descubro o Rio Alva, que me embalou tantas vezes, entre Cacilhas e o Terreiro do Paço, com as suas gentes apressadas, não tanto como hoje, antes corria-se menos. Nas viagens os habituais e quase permanentes engraxadores, e vendedores de rebuçados, e os seus pregões gráaaaaxa e ólhóspaladares, animavam o trajecto. Eu ficava-me pelos "paladares" que embora enrolados em cores diferentes, sabiam todos ao mesmo. Parece que ainda lhes sinto o sabor, e aquele pegar nos dentes. Transporto-me à época em que os problemas existiam, mas eram menores: Menor, também eu era, de infância meio atribulada mas mesmo assim, de cara alegre. Tinha a vida toda pela frente, não obstante os fantasmas que me atormentavam, os pais separados, coisa que na época era rara, e me deixava sempre desconfortável, principalmente entre colegas de escola. O meu vai-vem nos cacilheiros, devia-se à separação, que me fazia andar de casa em casa. Mas havia o tecto protector que me amparava, e tudo se compunha, havia sempre uma avó de cada lado do rio, que me acalentava e aninhava. E a muralha de aço que era um avô, capaz de resolver todos os obstáculos. Vejo na foto do Rio Alva, bem lá no fundo, atracado em Alcântara, um navio da CNN, talvez fosse o barco do avô, aquele que tudo resolvia. Hoje, para onde quer me me vire, não encontro os meus ancestrais . Todos partiram. E a sensação de não ter nenhuma camada protectora, faz-me aquele friozinho no estômago, assim tipo gauleses com medo que o céu lhes caia em cima. E ainda há quem diga que não se viaja nas fotografias. Então não. Viaja-se e navega-se.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

o verdadeiro Sagrado

Eis a verdadeira frase sem papas na língua. Não se trata de um ataque ao Vaticano, mas sim de uma constatação de factos. E vindo estas palavras de quem vem, as chances de qualquer defesa ou justificação, soa à hipocrisia milenar. Para cúmulo, proferidas,as palavras, por uma mulher, o Ser menor, aos olhos da igreja. 
Estivessem os crentes atentos, e pouca importância se daria a gestos desprovidos de qualquer utilidade com honras de horário nobre, atentando-se mais em palavras como as que proferiu o bispo de Braga.


terça-feira, 2 de abril de 2013

keep on rockin'

Acomodamo-nos com facilidade ao fácil, bem como se adquirimos um certo conforto, dificilmente cedemos a abdicar dele. Este serviço assim se chama na gíria de alguns músicos, um contrato, era tudo menos confortável, se comparado com aquilo a que me fui habituando. Era tudo contra: estacionar em Almada é caótico; o espaço destinado à música, ínfimo; o horário estendido desde o fim da tarde, até começar perto da meia noite; sala de fumadores; e um cachet pouco atraente. Na véspera, tinha até tido uma excelente proposta, bem comoda e mais bem paga, mas nem pensar nisso, havia dado a palavra ao amigo Manél, companheiro dos palcos do Iodo, que me angariou o serviço. Só foi preciso começar a tocar, para se dissiparem todos os tiques de comodismo, que afinal, ofuscam o essencial - a empatia com o público. E foi uma festa, com gente animada, muita balada, muito rock, até às 500'as, porque não se dá pelo tempo passar. Valeu a pena, despir a farda de músico burguês e acomodado, e fazer recuar o tempo. Repita-se. Daqui a uns meses, porque a idade não perdoa.