sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Voltei, 5 anos volvidos.

 Há mais de cinco anos, que aqui não vinha.

Mea total culpa, que embora tenha justificações que rebusco, não deveria ter desculpa, pois neste tempo percorrido decerto se escaparam muitos desabafos do meu interior d'alma.
A primeira justificação, esfarrapada, à ausência prende-se com o mediatismo das redes sociais, embora o Facebook agora já seja um "clássico", não deixo de diariamente colocar a minha postagem, tal como rego as minhas plantas. Com assiduidade. E por isso, outras escritas foram definhando. Trata-se do poder das tendências.
Depois, achei por bem dizer aqui que a minha vida deu uma volta de mais de trezentos e sessenta graus, qual centrifugadora, com a particularidade de que tudo o que aconteceu neste entretanto, foram uma sucessão de inesperadas coincidências e de oportunidades, às quais de certo modo fui aceitando, acreditando e agarrando.
Essa revolução, interna, externa, e lateral tem constituído um caminho pessoal que me tem feito bem, ma tem dado a estabilidade que tanto preciso, e embora (pois nunca é) nem tudo sejam rosas, considero que a frase "nunca percas a esperança" se adequa como uma luva à minha presente situação.
Não pretendo alongar-me muito por aqui hoje, e de facto isso é irrelevante, pois se antes poucas pessoas me liam, hoje, estou certo que ninguém me lerá, pelo que aquilo que escrevo é um mero exercicio intimo para registo e uso pessoal tal como vou fazendo com as minhas fotografias.
Pretendo apenas com este regresso vincar que o que aqui escreverei vai ser um totalmente reciclado interior d'alma, com cortes definitivos, com alterações de atitude flutuantes, e com escolhas também elas, definitivas.
A foto é recente: a França, onde me encontro.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Relatos do Grão Ducado 6, o primeiro dia

Começou hoje a execução deste devaneio a que me propus. Não creio que seja entusiasmo passageiro dado que é uma ideia amadurecida, e por isso se justificou ter carregado trabalho de casa, para melhor me documentar e preparar para este propòsito. Nem que seja para ter mais poder argumentativo juntos das portas às quais vou bater. Nem que seja porque se a matéria me interessa, sabê-la, estudà-la, faz todo o sentido. Nem que seja porque certamente estarei mais sàbio, e menos ignorante quando a obra estiver terminada. Nem que seja porque existe neste projecto uma justificação acrescida para voltar ao desenho a làpis de carvão, o que não fazia hà mais de vinte anos. Hoje foi o primeiro dia dos primeiros esboços escritos e rabiscados. Muitos dias virão em que não acontecerà nada, e outros haverão de mão cheia. As disponibilidades e as vontades serão a voz de comando. Vontades que prevejo não me virão a faltar, pois como aqui ilustro são amores meus: desenho, Fado, fotografia, Lisboa...

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Relatos do Grão Ducado 5, Meu Fado Meu Fado

Redescobri também por aqui o Fado. 

A este, conheço-o de tenra idade, desde o ouvir nas telefonias das avòs, e também nas suas bocas. Cantarolavam-no durante os seus afazeres caseiros. Uma das minhas avòs, traìda pelo meu avô, cantava muitas vezes, "dà tempo ao tempo... que o tempo corre e não cansa, e eu não perdi a esperança, de te ver chorar por mim...". O Fado, a Sina, o Destino, a Saudade, sempre viveram comigo, nas trazeiras das casas de Lisboa, nos programas da rtp a preto e branco, nos filmes da época aurea do cinema português.

Quando ingressei nos conjuntos o Fado passava-me um pouco ao lado. Eram tantos os temas para tocar, era tanta a descoberta do rock, das baladas, das canções da moda, que o Fado ficou para ali esquecido, remetido a um canto, onde apenas cantava Duas làgrimas de orvalho porque era da praxe o conjunto ter um tango, uma valsa, um paso doble, e também um fado, no repertòrio.
Para agravar a situação do desdém pelo Fado, estavamos no quente pòs 25 de Abril. A revolução não pactuava com sìmbolos do passado. Cometeram-se abusos totalitàrios. Algumas bestas de esquerda entenderam conotar o Fado ao fascismo. Felizmente, grandes compositores de esquerda tiveram o discernimento de o escrever, como o grande Ary dos Santos, e de o cantar, embora de cara lavada, como Fernando Tordo, com o Novo Fado Alegre, ou José Màrio Branco com o Fado da Tristeza.
Neste percurso dos conjuntos partilhei palcos com D.Amàlia, D.Herminia, muitos outros fadistas, mas aquilo do Fado, soava-nos a seca. Aproveitava-se para beber umas cervejolas...
A excepção desses anos foi apaixonar-me à primeira audição do vinil do Carlos do Carmo, Um Homem na Cidade.

Fechado o ciclo de tocar em grupo, a solo, venho a interessar-me por tudo o que tenha a ver com Ary dos Santos, e dali cheguei ao Fado, e à Senhora D.Amàlia. Até ali a sua voz, apenas passava nos meus ouvidos. Ao deixar-me penetrar pelo sentimento que esta mulher colocava nas canções, vieram os primeiros arrepios, e não mais deixei de escutar de ouvidos e sentidos, e respeitar, o Fado.

Não existem acasos, existe sim, a teoria do caos. Uma coisa leva a outra. E se não tivesse vindo parar a estas terras, muito certamente não estaria hoje a cantar o Fado, a sentir, a tocar, a aprender, a pisar palcos que nunca sonhei, e com um projecto em mente, que, a concretizar-se serà motivo de alma cheia. Se no entanto, este meu Fado não se cantar, contarà a felicidade de ter tentado.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Relatos do Grão Ducado 4, regressos e progressos

Nesta nova vida, a vida ensinou-me entre tantos outros ensinamentos, a gerir de outra forma os momentos. Até aqui chegar, a minha ansiedade sempre me afectou. Existe por dentro de mim, uma ansiedade, e uma insatisfação, que foi abrandando na proporção em que os dias aqui  iam correndo. 
Esse descomprimir possibilitou-me o acesso tão metodico como aleatorio, às gavetas da minha memoria, ao rebuscar emoções. Umas perdidas, outras esquecidas, outras trancadas a sete chaves. Não são fantasmas, dado que o que se viveu foi real, e se foi real està fora do campo da imaginação. O caminho é assumir e gerir.
Um dos maiores prazeres que este rencontro com os meus momentos e emoções de outrora, tem sido o revisitar das canções com as quais verdadeiramente vivi, pois vivi-as.
A nova vida permite-me rebuscar o prazer de rever os velhos albuns, tantos deles que guardo em vinil, no sotão, e nos acordes e melodia na minha mente. Alguns, quase esquecidos.
Sim, podemos e devemos voltar onde jà fomos felizes, e retomar o prazer unico de escutar a peça inteira, numa época em que a velocidade de navegação na internet é O dado adquirido. Imbecilmente roda-se a tela, visionam-se fragmentos, de videos, de musicas, de citações, etc. e fica-se imbecil na mesma, pois nada se aprendeu. Mea culpa também.

Mas o prazer dos regressos de visita ao passado não fica por aqui. Existe também a soma do dado novo, de reaprender o que jà se esquecera, bem como a descoberta deste ou aquele artista ou banda que sempre tivera vontade de aprofundar o conhecimento das suas obras. Uma forma deliciosa de evoluir, portanto. Porque quando escuto o noticiàrio em francês, alguma coisa fica, e quando escuto musica, ficam sempre mais notas e acordes aqui dentro. E nunca são demais, como comprovou Mozart, que as sabia encaixar como génio que foi.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Relatos do Grão Ducado 3, ou, Querido Diàrio

Querido diàrio, pelo enéssimo dia, não hà sol. Não havendo sol, não hà azul do céu, os dias repetem-se em tons de cinza, e escuridão, dignos de um conto de Poe. Mas não penses, querido diàrio, que este que aqui te escreve, sofre daqueles estados depressivos tão comuns, relatados por aqueles que sofrem de tal maleita. Atrevo-me a arriscar que a ausência do astro rei, não justifica o bater no fundo. Senão como explicar o elevado nùmero de depressivos no meu paìs? Coisa que não falta là em baixo, é o sol, é aquele céu de um azul ùnico, o mar, que nos pinta com os seus salpicos. Não, meu diàrio, o tom do céu, não tem culpa. 
Não me queixo, mas contudo não me acomodo. Prefiro pensar nas compensações, nas comparações inevitàveis que com tristeza constato no dia a dia. Se não fores rico ou bem remediado no meu paìs, mudas a agulha do viver para sobreviver, a tua dignidade, o teu rasto, o teu cadastro, as tuas obras, os teus sonhos, não serão valorizados, e o teu ânimo pode com facilidade resvalar para um limbo letàrgico.
Sei, diàrio meu, que por aqui nem tudo são rosas, nem nunca poderia ser. Mas convenhamos, sabe bem, o reconhecimento da nossa arte, sabe bem a remuneração condigna. Bem como a gestão dos tempos de trabalho e de lazer. Aqui, exerço a mùsica em pleno. Aprendo-a. Reaprendo-a. Faço uma gestão dos espaços temporais. Sem stress. De igual modo, sabem bem os detalhes pràticos que por aqui observo. Falo dos preços dos bens de consumo, muitos deles abaixo dos de là de baixo, falo do gasòleo a um euro, da ausência das portagens, dos selos nos carros, da limpeza das ruas, da segurança, da qualidade dos edifìcios. Mais importante ainda, o cuidado que esta gente por aqui tem com a Saùde, da proteção prioritària aos idosos, às crianças e aos cães. E por isso espelham a felicidade e a qualidade de vida, mesmo que não vejam o sol, nem o mar.
Devias ver, querido diàrio, em que se ocupa este pessoal, compram livros para os ler, os cd's para os ouvir, os dvd's para os ver. Praticam muito desporto, e curiosamente pouco ligam ao futebol, talvez porque pensem como eu, que o futebol profissional não é desporto, mas sim uma espécie de desporto. Pouco se perdem pelos poucos espaços comerciais fechados, que aqui usam horàrios eficientes e não deficientes. Vê là tu, diàrio meu, se era possivel, no meu paìs, os centros comerciais fecharem às sete da noite, e aos domingos? Os patrões ameaçariam com despedimentos, o Zé Tuga, ficaria sem chão. Para onde iria o Tuga num paìs repleto de locais que os turistas adoram, e com o tal céu e mar que aqui me falta. Seriam decerto mais depressões. Aqui, divertem-se com tarefas caseiras, de jardinagem, hobbies saudàveis, visitam museus, exposições, tudo num tom descontraìdo e discreto. E fazem férias. Muitas férias. Vàrias vezes ao ano. A preços escandalosamente baratos para o Tuga... imaginemos para eles. 
Por isso meu diàrio, sinto-me bem aqui, nesta roupa que jà trazia vestida, mas que estava camuflada. Não te deixes assim vestir, assim canta o Sérgio Godinho.
Não quero aqui afirmar, meu diàrio, que porque enalteço aquilo que jà te escrevi, a cartilha sirva para a geral. Apenas que, devemos aproveitar e arriscar em vez de nos acomodarmos. 
E se estamos no registo do primeiro dia do resto da tua vida tenhamos a ousadia de dizer mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Pois na mudança revivemos e evoluimos. Hoje eu sei dizer duas palavras em luxemburguês, e ando a desenferrujar o francês. Não me prendo apenas à realidade do meu rectangulo. Absorvo outras realidades. Hoje eu domino mais algumas técnicas na guitarra, exijo algum rigor porque ele me é exigido. Modéstia aparte, canto melhor. E tudo isso porque mudei para o modo viver.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Relatos do Grão Ducado 2, o modo Avatar

O modo Avatar é tão somente o modo interruptor verificado no filme. Onde o protagonista principal da història muda literalmente de mundo, com pouco mais de um click. Mudar de Portugal para o Luxemburgo, ou o inverso não é tão radical, muito menos serà se por uns dias. Contudo se somos residentes, aì tudo se intensifica. E as diferenças surgem à tona.
A volatilidade com que nos deparamos, nesta transição mede-se em horas. Poucas. Num momento estamos aqui e noutro momento, estamos ali. Vista a coisa no Google maps, é simples. Afinal são duas horas e meia. Mas atendendo ao detalhe, logo verificamos que o aqui é um mundo e o ali é outro. Estou desde Novembro de 2014, e gradualmente a viver neste vai-vem. Apanho o avião com a emoção de apanhar o autocarro. Longe daquele fervilhar que antecedia os voos de outrora. Não alimento neste vai-vem o pensamento do Variações quando cantava que sò estava bem onde não estava. Sei que nesta nova pele me sinto bem, que faço o que melhor sei fazer: tocar e cantar, que tenho mais tempo para mim, e por isso, mais e melhor tempo para os outros. Que tenho um novo mundo e emoções para explorar. Que tenho construido novas amizades. Que estou a aprender: linguas, novas mùsicas, o Fado, Història local. Em suma, evoluo, e não estagno. Mesmo não havendo tantos outros motivos, seriam estes, mais que suficientes para que este Avatar que hà em mim, tivesse, em boa hora aceite o desafio de largar o cobertor da zona de conforto. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Relatos do Grão Ducado 1

                                                  (escrevo com erros de acentuação dado que este teclado é ucraniano ou coisa parecida)
Talvez seja desta. Que me vem de novo a veia de escrevinhar o que me vai no interior da alma. Tenho reflectido inumeras vezes sobre voltar aqui, ou deixar tudo emparedado no universo virtual, cada vez mais presente no nosso dia a dia. No entanto um dia sem net é um dia feliz. De liberdade. De não dependência. Um dia, escrever-se-à sobre isto. Não tenho duvidas. Largar este blogue com a sua historia, afinal, parte de mim, não me agrada. Mantê-lo sò porque sim, também não. 

Estou actualmente, quase em permanência no Luxemburgo. Para ser mais preciso, no norte de França, a cerca de dois quilometros deste pequeno paìs. Serà essencialmente sobre as impressões de um português a morar fora da sua zona de conforto, como agora é moda dizer-se, que me irei debruçar nos textos vindouros. As experiências que atravessamos, ou nos atravessam, são pessoais, mas também possuem uma boa dose de parecença com as de outros. Estar por aqui em tempo real, sem ser um turista, faz-me ver entre outras coisas, as coisas de forma diferente, seja nos conceitos e preconceitos que tantas vezes criamos, por informação errada, deturpada, por convicção, e afins. Ou até mesmo porque estupidamente queremso que seja assim. Falo do chavão "emigrante", palavra que não gosto. Falo da cultura, hàbitos e tradições de outros povos. Falo com a consciência, agora humilde, de que apesar de ter conhecido dezenas de paises, em três continentes, afinal, não os conheci. Apenas, estive là. Belisquei-os. Sermos romanos em Roma, sem deixarmos para segundo plano as nossas raizes é essencial.

A experiência de vida que venho a ter desde hà pouco mais de dois anos, consolidada a tempo inteiro desde meados do ano passado, tem sido gratificante a todos os niveis. Nunca pensaria eu, que no limiar dos sessenta anos, (sexagenàrio, outra palavra que detesto) a vida me oferecesse tal desafio e me colocasse à prova. Prova essa que com altos e baixos, rosas e seus espinhos, tem sido superada. 

Como tão bem diz a frase: podemos sempre fazer um novo futuro.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Refugiados

Um dos assuntos do momento são os refugiados, os migrantes, os que fogem, os que mudam do local onde nasceram, em busca de outro lugar. São múltiplas as explicações, bem como o são as interpretações, bem com o são imprecisas as hipotéticas certezas sobre o que está a acontecer, muito mais ao que virá a acontecer.

Talvez pelo facto de me encontrar, nos tempos que passo aqui onde me encontro, mais calmo, mais tranquilo, me posso permitir a uma análise mais cuidada, e imparcial de toda esta sucessão de acontecimentos. Isto sem querer ter a presunção da certeza, mas tão somente, uma pacífica existência comigo mesmo, uma vez que, discutir estes assuntos, é melindroso. Muito melindroso.

O que me é dado a conhecer pelas notícias divulgadas aqui pelo Grãoducado, confere com o tratamento considerado justo, e na medida certa daquilo que é considerado, no meu entender, e pelos vistos pelos povos aqui da redondeza, como acçõs respeitadoras do ser humano e da sua dignidade, com o particular cuidado de não pisar em seara alheia, sem deixar primeiro de cuidar da sua própria seara.

O que daqui vejo no meu país, é algo que não é novidade. Já antes vi Portugal vestir-se de branco, a bem de Timor. Sobre Timor, sobre Sarajevo não faltaram até canções com aspiração a hino. Somos o povo da caridade no Natal. Em suma, o tuga tem uma tendência a abrir a camisa, mostrar os peitos, e tomar as rédeas de salvadores. Aqui me declaro, antes de prosseguir a prosa, a favor do apoio e inclusão de refugiados em Portugal. Contudo, seguindo exemplos inteligentes e sem publicidades. Não esqueçamos que em países ditos irmãos, tais como Angola ou Brasil, todos os dias morrem crianças por doença e sub-nutrição. Não esqueçamos os que tendo nascido em Portugal, e certamente, sem condições de de lá sairem, irão morrer de, e na miséria. É uma questão de coerencia e de autenticidade. Façamos então, já que temos nós esta característica de dar os peitos às causas, concertos, eventos vários, peditórios, aos que estando dentro da própria casa, que se diz país, não têm o direito de antena de se fazerem ouvir. Se como se diz todos somos filhos de Deus, porque olham alguns homens, só na direcção de alguns homens, apenas porque estes estão na aurea do mediatismo?    

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Voltei, voltei

Desde Março de 2014 que aqui não vinha. Ano e meio de falta de inspiração? Talvez. Creio que o mais apropriado será dizer, falta de vontade. Motivos para a prosa nunca faltaram. Depois vem aquela questão - escrever para quê? para quem? De facto, quando escrevemos, para além de nós mesmos, temos sempre uma esperança que  alguém, por vontade ou por acaso, nos leia. Por vezes escreve-se como se fotografa, para mais tarde recordar. Relemo-nos pode ser por si só uma viajem ao nosso passado, ao nosso interior, o que pode ser bom e menos bom, doce ou amargo ao mesmo tempo. Conforme, portanto.

Nestes últimos meses por aqui não me desvendei, por aqui não me perdi. Muito retratei, e muitas notas músicais debitei. Os horizontes musicais alargaram-se a outros palcos, e qual Linda da mala de cartão, em menos de um ano fiz mais de meia-dúzia de visitas ao Grão Ducado, para tocar para quem me escuta, os portugueses.

Se vemos, ouvimos, e lemos, não podemos ignorar. No meu caso, andando cá e lá, ou lá e cá, observando in loquo as colossais diferenças existentes entre o meu pobre país, e este onde me encontro, e mesmo nos países limítrofes, a minha indignação aumentou dramáticamente, quanto à forma como vai o meu país, num estado do qual, prevejo, nunca sairá. Porque é bem habitado, mas mal governado.

Deixo por hoje as palavras escritas, dado que a intenção era mesmo esta: a dizer, Voltei, Voltei. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pai Nosso

Abro o facebook e levo com uma invasão de posts sobre o Pai. Estamos cada vez mais à mercê do dia disto e do dia daquilo. Há poucas semanas milhares de mulheres embebedaram-se, algumas fizeram decerto o que não deviam, outras foram para casa mais tarde do que o costume, só porque a ordem era ditada pelo calendário. Poucas decerto deverão saber porque se chama Dia da Mulher, o 8 de Março.
Tal como eu não sei porque é hoje o dia do Pai. Decerto haverá explicação para que hoje, os meus filhos eventualmente me dêem mais atenção, o que duvido, já que nas relações que mantemos, os afectos não se resumem a um dia, mas a todos. Decerto que haverá, para além do apelo consumista, um motivo acrescido para que hoje, me lembre mais um pouco do meu Pai, e dos meus Avôs, mas sinceramente, não encontro motivo, nem dele necessito, dado que a lembrança dos que por mim passaram, celebro-a em permanência. Mesmo assim, para não destoar, aqui fica a lembrança, no recato do blogue, longe do bulício facebookiano.

sábado, 15 de março de 2014

Diz-me o que ouves...

A frase é antiga. Li por aí, que até é bíblica - diz-me com quem andas, e eu te direi quem és - da força das palavras, surgiram as variantes tais como, diz-me com quem dormes, ou  como dormes, ou diz-me o que fazes, e por aí adiante.

Realizei, que também se pode obter um pouco de conhecimento das personalidades questionando - diz-me o que ouves. E complicando - como e quando.

Nas horas que me possibilita a vida e a vontade, de ouvir o que quero, seja pedalando, no carro, ou aqui neste cantinho onde me encontro, procuro algumas vezes o lado surpresa, deixando que nos posto de rádio preferidos alguém me surpreenda, bem noutras vezes, busco as minhas próprias músicas, numa necessidade quase essencial. E por aí vou viajando, levitando tanto quanto me permita o desprendimento ao aqui e agora, mas sempre tendo presente as palavras da canção - não se ama alguém que não ouve a mesma canção.

FM de hoje: Marginal e Smooth
audio pessoal de hoje: Lulu Santos e Adriana Calcanhoto

sexta-feira, 14 de março de 2014

das pequenas felicidades 2

Ontem, entre trabalho, houve ocasião de um fuga à rotina. Um passeio musculado, de puro BTT, e pausas para fotografar pelos trilhos da Serro do Louro, onde pontuam os moinhos, as ruínas romanas e paisagens de cortar a respiração, nos quatro pontos cardeais.
Já por ali andara, tanto em duas rodas, como em caminhadas. Literalmente, repeti o percurso de cerca de nove quilómetros. 
Não sou defensor da convicção de que não se deve voltar aos lugares onde já fomos felizes. Se ali já fui feliz, voltar, tem toda a justificação. Porque se não voltamos aos lugares onde ( e neste caso aplica-se a palavra - supostamente) já fomos felizes, então é porque na realidade, não o fomos verdadeiramente, e por conseguinte, assim sendo, há que fechar a porta, dar sumiço à chave, e procurar novos locais de passeio. Por outras palavras, ser feliz noutros trilhos.

terça-feira, 11 de março de 2014

das pequenas felicidades

Nunca devemos buscar pontos de equilíbrio porque sim. Devemos deixar que se manifestem, tal como as emoções e os amores. A busca pode ser, e quase sempre é, enganosa. 

Não acredito em teses, livros, ditados, de auto-ajuda. Receitas generalizadas, só as quero em volta dos tachos e das panelas. Acredito que apuramos naturalmente o que nos faz bem. Depois é termos a lucidez de usar dentro do que nos rodeia, e tanto quanto está ao nosso alcance, aquilo que sabemos, porque sentimos, que nos faz bem. 

Por isso, poucos poderão avaliar o bem que me sabe e  melhor, o bem que me faz, um passeio na minha fiel bicicleta, por caminhos pouco usados, onde a banda sonora é composta pelo canto dos pássaros, e pelo brotar dos riachos e dos cursos de água. 

Acredito pois que somos nós cada um de seu modo a criar a sua auto-ajuda, que corrijo para auto-satisfação dado que se temos ADN, é porque todos, mesmo que idênticos, somos únicos, portanto diferentes. E se cada um sabe as dores que tem, cada um terá também de procurar o seu remédio d'alma. Sob pena de se prender a palavras erradas, junto com a multidão que leu a mesma cartilha.

sexta-feira, 7 de março de 2014

o tempo mudou

Por vezes as nossas preces são ouvidas. E atendidas. Acabou o mau tempo. Chega portanto o tempo de contar as munições, e tal como diz Cecília Meireles, voltar inteiro. Não resisti ontem, a uma aventura radical e temerária, digna de post em breve, em cima de duas rodas, em plena comunhão com a natureza. Foi o azul e verde, foram os cantos da passarada, e foram os meus pensamentos. O tanto quanto o corpo permitiu, dadas as teias instaladas pelo sedentarismo. Vamos lá começar a arrumar a casa. Porque o tempo mudou. E com diz o poeta "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".

terça-feira, 4 de março de 2014

porque o sol e a lua também assim fazem

Se é a própria natureza a dizer-nos na sua sabedoria, que assim tem de ser, dado que o nascer e o por do sol respeitam na sua alternância, esse dado consumado, porque insistimos nós, tantas vezes em querer mudar o que não pode ser mudado? Viver um dia de cada vez, é inevitável. Tentar viver de outra forma é portanto, contra natura, e perigoso. Viver um dia após o outro pode evitar muitos erros, muitas decepções. Bem como pode e deve ser sempre uma atitude de não querer antecipar o mero imaginário sem qualquer base de sustentação, dado que na observação do dia a dia se constrói muito mais sábia e consistentemente, o sonho.

domingo, 2 de março de 2014

rever nem sempre é bom


Há muito que não rumava à Costa, até porque desaconselham os passeios pelo paredão. E se há coisa que o meu povo gosta é de desafiar a ordem e a natureza, pelo que o paredão estava bem recheado de caminhantes, e de mirones.
Encontro o Zé, sem esperar. Depois daquela conversa, do que é feito de ti? do há quantos anos não nos vemos? O que é que fazes agora? Com que idade é que já vais? Entra-me na defensiva. Como que se não quisesse admitir que as coisas não estão nada bem, quando a primeira saudação é a de sempre: TUDO! quando questionados - então está tudo bem contigo?
Não consegui manter um diálogo franco, como os que tinha com o Zé, aqui há anos, fosse em trabalho ou em lazer. Não de repente, mas pelo contrário, porque anos se passaram, e as circunstâncias mudam, e com elas, as pessoas, dou com um Zé que não conheço, evasivo, e pouco franco.
Na despedida, mais uma frase banal - temos de combinar qualquer coisa! Aparece! Pois, claro. Pois quem não aparece... esquece. Mas não será certamente em busca do Zé, será porque, sempre que contemplo o mar, as minhas ansiedades pausam.

sábado, 1 de março de 2014

Primavera, precisa-se


De volta aqui. Os cantos que criamos, no universo virtual, são um pouco como as gavetas dos nossos móveis onde guardamos as tralhas. E consoante as vontades ou a ausência das mesmas, as ditas gavetas, irão abrir-se, ou não. Outra possível comparação poderia ser semelhante a uma pequena horta, em que cada página, cada blogue, cada sítio tem de ser cuidado, regado, assiduamente, sob pena de cair no esquecimento, e definhar. Quando a gente gosta, é claro que agente cuida, diz a canção. A parte do pequeno Príncipe com a sua famosa rosa, também poderia servir de exemplo.

Os motivos vários que nos levam a mudar hábitos, presenças, muitas vezes não se explicam. Simplesmente são comandados pelas vontades, pelas escolhas, pelas circunstâncias, pelos imprevistos, pelos motivos de força maior, pelo cansaço. Como existe sempre no acto da decisão da mudança, uma liberdade residual, chamemos então a isto tudo, apenas de - vontade. 

Realizei que é temerário deixarmos as nossas vontades à mercê de outros, nem que seja pela metade, nem que seja por menos de metade. Existe sempre o risco a que a vontade mude de rumo, porque na metade que não nos cabe, a vontade mudou de norte. E aí lá temos de reformular os cálculos.  Quando pensamos que sabemos todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas, diz-se.

Uma frase de Cecília Meireles, sempre me deixou simpatia e admiração: "aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira". O retrato que tirei, não é da primavera que ainda não chegou, foi tirado no outono, ao qual se seguiu um inverno que teima em não me abandonar. Gosto dos invernos apenas quanto baste e preciso urgentemente da primavera para me reorganizar, para rever as minhas vontades, sem ser pela metade. Porque embora não cortado, nem aos bocados, também não me sinto inteiro. Porque, desde que me conheço, nunca passei por um inverno tão longo, um inverno que não me vai deixar saudades. Um inverno que embora não o possa esquecer, tudo farei para que o recorde o menos possível.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

o Panteão

Certamente por ignorância ou desinteresse, nunca soube quais os critérios de admissão para a permanência eterna no Panteão Nacional. Mais mea culpa faço por não ter conhecimento de todos os que lá moram, apesar de ter visitado a chamada Igreja de Santa Engrácia, cujas obras tardaram.

Sei que houve polemica para ali introduzir os restos mortais de Amália Rodrigues. Mas o facto é que não só está Amália, como a sua voz se escuta nos ecos naturais do monumento. Fará mais sentido escutar a voz de Amália, do que escutar a um actor declamando Camões. 

Reclama-se hoje, e com urgência a entrada do jogador de futebol, Eusébio, no Panteão. Não tenho por ora bases com que fundamente a minha opinião favorável ou a contrária. Apenas vejo hoje, que abrindo as portas do Panteão a Eusébio, certamente se estarão a abrir as portas, num futuro que espero, longínquo, ao jogador de futebol, que hoje, em Madrid, já vai tendo uma boa dose dos motivos invocados ao ingresso eterno.

Veremos se numa próxima visita, em vez de escutar a voz de Amália, o pano de fundo sonoro, não será a voz de Artur Agostinho, relatando os jogos do Eusébio.

http://cantinhodosretratos.blogspot.pt/2011/12/panteao-nacional.html

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

os Filhos de Uns e os Filhos dos Outros

Estranha pátria esta minha que trata com desigual cuidado os (seus) filhos que lhes enobreceram a História.

Muito me entristeceu a partida da Dona Amália.

Muito me entristeceu a partida de Eusébio.

De igual modo me entristeceu a partida de Carlos Paredes.

E de Zeca Afonso.

E também de José Saramago.

Mas os arautos da ditosa pátria assim não entendem. Nem tão pouco os meios de comunicação.

Parece que medem o choro, a lágrima e o discurso pelos números das multidões.

Não desejo mal nenhum ao cantor, mas caso, o Toni Carreira se finasse, isso é que seria o país parado de bandeira a meia haste para aí mais de quinze dias.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

ano novo

O calendário muda num mero número, e é tudo a dizer que este ano vai ser assim, e assado, que vai haver dieta, que este ano é que é, que se vai mudar de vida, de rumo. Uns que vão deixar de fumar, ou de beber. Ou começar... 

Somos (quase) todos donos dos mesmos inúteis e fúteis clichées nesta época. No Natal usa-se muito o amor, muita prenda, muita comida na mesa, muita solidariedade com os pobrezinhos, e com as causas. Arredonda-se no supermercado e fica-se com aquela sensação do dever cumprido. 
Na passagem de ano, outra vez muita comida na mesa, muita bebida com muitas borbulhas, muitos votos de um bom novo ano, como se isso fosse possível, bastando o vislumbre de que afinal nada vai mudar nas cadeiras que nos sorvem os parcos tostões. 

Nem me posso queixar do ano que passou. Tive saúde, progressos mesmo que ligeiros na área de trabalho, a música foi-se celebrando, apurei o gosto ao hobby da fotografia, e nos recantos do recato, os tais do foro íntimo, aqueles que todos devemos omitir publicamente, dado que existem fronteiras que só  a nós dizem respeito (e esse nós, deve ler-se - par) o ano foi de feliz constatação das certezas.

Não havendo bela sem senão, e porque o calendário é importante. Por vezes implacável, aponto hoje datas no calendário do "ano novo" que não queria de todo marcar. De ressaca, fica-me uma diminuta consolação.

No restante, as circunstâncias determinarão a que mudanças me proporei, por vontade, e por possibilidade. Tudo me indica que a navegação à vista é a norma aplicável. Porque cada vez faz mais sentido aquela frase que diz: quando penso que sei todas as respostas, vem a vida e troca-me todas as perguntas. Uma verdade que muito limita o plano e o sonho. Por isso nos devemos reservar ao direito de encarar com o mesmo sentir, o vislumbre da mudança, e também, o de não mexer uma palha. Porque na navegação, todos sabemos, o vento pude mudar a qualquer instante.